Meu amigo e conterrâneo Fernando Mendes se lembrou do seu avô Joviniano Correa Mendes, mais conhecido por “Nem”, morador da fazenda Água Branca, em Neves Paulista, nos idos de 1930. Segundo o neto, seu Nem era catireiro dos bons, enfrentava desafios nos braços da viola e não tinha quem ganhasse dele no ofício da cantoria. O homem também não enjeitava água que passarinho não bebe. Essa, ele bebia que dava medo, principalmente nas rodas de catiras e nos bailes onde tocava sua viola. Nos meses de janeiro, como chovia muito, ele aproveitava que a lida ficava prejudicada para acompanhar companhias de Santos Reis pelas redondezas, já que era adepto fervoroso. Certa feita ficou por mais de 15 dias alongado, acompanhando a companhia, deixando aos filhos a incumbência de cuidar dos mais de quinze mil pés de café.
Um belo dia pela manhã, um colono veio correndo avisar que o cavalo do seu Nem estava na porteira do curral querendo entrar. Quando viram o animal sem o cavaleiro, entraram em desespero, pensando que o homem estivesse morto. Depois de muito procurarem, foram encontrá-lo caído, porém, protegido com a capa de boiadeiro, dentro de uma valeta, coberto de lama, somente com a cara para fora. O incrível é que ele ainda estava com o teor alcoólico elevado e não tinha dado conta da queda e dormia profundamente.
Alguns dias depois do ocorrido, recuperado do trauma, colocou culpa no cavalo, dizendo que o animal o havia derrubado e não ele quem tinha caído. O acidente fez com que ele pegasse birra do bragado. Dizia: “Esse bicho é treteru, num munto mais nele. Na próxima inté é capaiz di mi matá!” Era mês de março, quando apareceu por lá um tropeiro que fazia rolo com cavalos. Vendia, comprava e fazia barganhas. Seu Nem viu a oportunidade de se desfazer do cavalo e pergunta ao dono da tropa: “U sior qué breganhá meu cavalo marchadô com um animar seu?” E o vendedor respondeu: “Só si fô na oreia”. Ato contínuo, pediu ao ajudante que pegasse o pampa por nome Cabrito. Negócio fechado, o avô do meu amigo pediu que fosse seja um bem mansinho. Vai quê…?
De posse do pampa, apresentava a todos com muito orgulho a belezura que havia “breganhado”. Achava lindo, por exemplo, as manchas negras, que davam ao bicho um ar de cavalo de fazendeiro e, além do mais, era bom de marcha. “Num derrama nem um copo de água com a gente im riba, di tão bão qui é”, dizia dele, todo satisfeito.
Pediu ao filho que soltasse a montaria no pasto e deixasse com o cabresto. No outro dia bem cedo iria pra vila e, assim, ficava mais fácil pegá-lo. Naquela noite choveu tanto que cachorro bebia água em pé. O homem levantou ainda bem escuro, foi até o piquete, e nada de encontrar sua preciosidade. Encontrou enroscado na cerca o cabresto. Viu pastando tranquilo um animal branquinho, achou estranho, mesmo assim decidiu chamá-lo pelo nome: “Cabrito!!” O branquelo levantou o pescoço e relinchou. As manchas pretas foram feitas de graxa de sapato. Com o aguaceiro, o pampa se transformou. Imaginem a raiva do seu Nem ao perceber que fora enganado. Ao saberem do ocorrido, as pessoas caíam na gargalhada. Seu “Nem” perdeu o gosto pela cantoria, pelo catira e nunca mais colocou na boca uma gota da água que passarinho não bebe, de tão aborrecido que ficou. Procurou esquecer a “breganha”, mas, se alguém se atrevesse a lembrá-lo, a confusão estava formada!
