Fé no santo: todos os anos Curinga pisa nas brasas de São João. (Fotos: Altino Setentaluas/FC)

CULTURA POPULARDevoto percorre descalço todos os anos braseiro da tradicional festa de São João

Todos os anos, como já fazem quase vinte, Curinga retira os sapatos surrados da lida diária, recita uma oração e caminha em direção ao braseiro diante da igreja. É dia de São João, e elas (as brasas) estão tinindo sob o foguetório que rompe o céu da pacata Ariranha. Levando consigo um punhado de promessas, percorre o caminho ardido com serenidade e convicção. Vai e volta, vai e volta, com calma, mais uma missão cumprida.
Segundo o estudioso de práticas religiosas Benê Villiato, do Observatório da Cultura, o ato de pisar em brasas nas festas de São João é uma tradição cultural e religiosa muito praticado Brasil afora, como também no interior paulista, em que pessoas andam descalças sobre o carvão aceso da fogueira, guiadas pela fé e pela coragem.
Aos 55 anos, José Luiz Scarabello está acostumado à vida dura. Limpar terrenos, capinar quintais, faz de tudo um pouco. “A vida não é fácil e nunca pensei que fosse”, conta o rapaz.
Na cidade aonde o santo padroeiro protagoniza uma das festas anuais mais concorridas do interior paulista, Curinga é famoso por percorrer o braseiro no dia do santo e, pasmem, só sentir “cosquinha”. “Nunca queimei meus pés, me concentro e sinto esquentar um pouco, depois sinto um pouco de cócegas”, explica Coringa, que confessa também levar junto de si promessas de outros devotos.
Ao exibir os pés para a reportagem, conta que o terror dos “pisadores de brasa” são as pedras. Ah, elas (as pedras) sempre aparecem no caminho das pessoas, e a vida se confunde com os mistérios da fé. As pedras, como conta Curinga, não perdoam. Colam na sola dos pés, e ardem. “Marcam para a vida toda”, conta.

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