Seu Ângelo e dona Maria Vedovello colhem café no quintal de casa. (Fotos: Altino Setentaluas/FC)

Moradores da região de Rio Preto mantêm viva a tradição de cultivar o grão no quintal, herança da roça que veio na mudança

É época de safra. O café está barato nas gôndolas dos supermercados e o cheiro do pó moído na hora escapa pelas portas das vendinhas de bairro. Mesmo assim, em algumas casas da região de Rio Preto, o ritual é outro: a colheita acontece no próprio quintal. Fruto vermelho na mão, cheiro de terra molhada e panela no fogo. É o hábito que o velho caipira trouxe da roça e teima em não deixar morrer. A Folha Caipira foi a pequenas cidades do interior para encontrar essas pessoas que transformaram o pé de café em planta de estimação e garantem, grão a grão, a xícara sagrada de todas as manhãs.
Em Tabapuã, quem abre o portão pra gente é o casal Ângelo e Maria Vedovello. Os dois cresceram na roça e viveram mais de 30 anos no campo. Quando a lavoura de café acabou, fizeram as malas e foram pra cidade. Mas não de mãos vazias. “Veio tudo na caçamba do trator”, lembra seu Ângelo, de 72 anos. “Móvel, panela, galinha… e muda de café. Não podia faltar.”
Na nova casa, plantaram 20 pés no fundo do quintal. Hoje, são responsáveis pelo café da família por quase o ano inteiro. “Pelo menos garante o cafezinho de meio ano”, ele ri, orgulhoso.
A fama da “plantação urbana” correu a cidade. Um dia, uma professora passou em frente, viu os pés carregados e voltou dias depois com uma turma de alunos. “Com nossa permissão, ela trouxe a criançada pra conhecer de onde vem a bebida. As crianças ficaram encantadas de ver o grão no pé”, conta Maria.
Em Ariranha, a cena é de zelo. Dona Mafalda Almadda, 89 anos, está de chapéu e enxada na mão. Ela cuida dos pés de café que o marido trouxe da fazenda em Ribeirão Preto, onde viveram por mais de meio século. “Falam que café não pode ficar velho. Mentira. Se tratar direito, vive mais de cem anos”, diz ela, enquanto arranca um broto de mato do pé do tronco com a precisão de quem faz isso há décadas.
Para dona Mafalda, cuidar do cafezal é terapia. É conversa com o marido que já partiu e é garantia de que o gosto da roça não vai se perder. “Todo dia eu dou uma olhada. Se a folha tá amarela, se precisa de água. Eles são que nem filho.”
Em Cedral, o café está até no brasão da cidade. Ramas carregadas de frutos vermelhos enfeitam o escudo do município que já fez parte da maior fronteira produtora do Brasil. Os cafezais extensos ficaram no passado, mas a tradição da torra e da moagem continua viva.
É o caso da família Faquim. Há décadas eles trabalham com café. Hoje, Quinho Faquim, 52 anos, comanda uma pequena loja no centro. Lá dentro, o grão é torrado na hora. Vem de produtores selecionados e sai quentinho, com aquele aroma que invade a calçaca. Na frente da loja, em um vaso grande, está o cartão de visitas: um pé de café viçoso. “Comprei a muda só pra enfeitar. Ela cresceu, virou uma árvore bonita. Hoje o pessoal tira foto com ela. Virou referência da loja”, conta Quinho. Ele explica que o café arábica tem origem no Oriente Médio, mas se adaptou tão bem ao Brasil que virou parte da nossa identidade.
Nem toda história tem final feliz. Em Catiguá, dona Rosa, 70 anos, comprou sua casa há quase 50 anos e encontrou um pé de café plantado. “Quando cheguei, ele já estava aqui. Tomei muito café feito com ele”, lembra a aposentada. O problema é que a planta está envelhecendo. As folhas caem mais, a produção diminuiu. “Ele está sentindo o tempo. Dói ver, porque foi ele que me acompanhou por tantos anos.”
Em Adolfo, Ercília Cândida Ferreira Rodrigues, 75, viveu por mais de 30 anos com 11 pés de café no quintal. Eram duas sacas por ano. Dava pra família inteira. “Era um prazer. Colher, lavar, secar no terreiro, torrar na panela e moer. O cheiro tomava a casa inteira”, recorda.
Há cerca de 10 anos, os pés começaram a parar de produzir. Secaram. Morreram. “Foi uma pena. Acabou o café, mas ficaram as lembranças e o costume. Até hoje eu sinto falta de cuidar deles.”
Seja em vaso na calçada, em 20 pés no fundo do quintal ou em um único pé antigo, o café da região de Rio Preto resistiu à mudança da roça pra cidade. Não é só sobre economia. É sobre manter a raiz. É sobre o casal que trouxe a muda na mudança, sobre a vó de 89 anos com a enxada na mão, sobre a loja que virou ponto de encontro e sobre a aposentada que chora a morte do pé que a acompanhou por 50 anos. No fim, o café preto e de aroma contagiante continua o mesmo. Só muda o endereço da colheita. Enquanto houver um grão vermelho pra apanhar no quintal, a tradição do “caipira” vai seguir fervendo na panela, todas as manhãs.

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