Taxa de desmatamento registra maior queda em 10 anos e lenda de 1560 volta a assustar quem destrói a floresta
Descrito pela primeira vez em 1560 por padre José de Anchieta, em carta escrita em São Vicente, o “menino de fogo” voltou a dar as caras. Para os indígenas, era o curumim de corpo em pira, de fogo. Para o interior do país, onde agosto é o mês dele, é o vingador da natureza que faz caçador andar em círculos e se perder na mata para sempre.
Mascote de berço do povo caipira e sertanejo, personagem de Mazzaropi em “A Marvada Carne” e mascote dos ambientalistas na COP 30, em Belém, no ano passado, o Curupira sempre teve um propósito, como explica a escritora Januária Alves, autora de “O Curupira e outros seres fantásticos do folclore brasileiro”.
“É um ser fantástico, mágico e defensor da floresta. Protetor das matas e da caça. É traquina, apronta, prega peças porque o grande propósito é salvar as matas, preservar as florestas. Ele faz de tudo para que não se viole a natureza”.
E parece que a traquinagem funcionou.
Os alertas de desmatamento na Amazônia registraram queda de quase 37% entre agosto de 2025 e julho de 2026, atingindo o menor nível da série histórica de 11 anos do sistema Deter, do INPE — iniciada em agosto de 2015. Foram 2.874 km² no ciclo. Só na Amazônia Legal, a redução foi de 61% em relação a 2025 — de 960 km² para 370 km² em um mês —, a maior redução percentual já registrada na região.
Os números foram divulgados em agosto durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Observatório Regional Amazônico, em Brasília. O Deter orienta as ações em campo do Ibama e do ICMBio.
PACTO ENTRE O
MITO E A POLÍTICA
A explicação não é só mística. É também de gestão.
Segundo dados do INPE, o Cerrado também registrou redução de 7,8% no mesmo período, com cerca de 5.119 km². Estados que antes lideravam o ranking da destruição agora lideram a queda: Mato Grosso (- 49%), Amazonas (- 46%), Rondônia (- 41%) e Pará (- 25,5%).
Dois fatores se somaram nessa proteção:
- O Curupira, protetor das florestas: o resgate simbólico do guardião que a superstição, filha do medo, como já dizia o homem primitivo que temia o Sol, a Lua e o trovão, criou para proteger o que é de todos. Como lembra o historiador Machado Filho, especialista em cultura popular, ele é emblemático entre as lendas caipiras justamente porque não perdoa.
- O governo federal, protetor da fiscalização: fortalecimento da fiscalização ambiental, aumento de investimentos e operações federais de combate a crimes ambientais. Só em terras Yanomami, a atividade garimpeira ilegal caiu mais de 98%.
A queda histórica mostra que, quando o Estado faz a sua parte em campo e o imaginário popular faz a sua na cultura, a floresta respira.
O Curupira, afinal, nunca trabalhou sozinho. Em 1560, ele assustava quem desmatava com ilusões. Em 2026 ele tem Ibama, ICMBio, INPE e satélite.
Então, quando estiver prestes a causar um mal à natureza, lembre-se do aviso caipira: o menino de fogo vai te pegar. E agora, com multa e embargado.

