É claro que temos que fazer o bem sem olhar a quem, sem esperar nada em troca. Mas, às vezes, tomamos certas atitudes nos esquecendo, completamente, de que o mundo não dá voltas. Ele capota.
Sei que essa introdução está bem misteriosa, mas vou me explicar, porque o assunto é realmente sério.
Uma senhora, amiga de longa data da minha avó, mora no condomínio desde a época dela e dos moradores mais antigos, todos, infelizmente, já falecidos, inclusive minha avó. Essa senhora comprou o apartamento quando ainda existiam casas nos arredores de onde hoje o condomínio está, ou seja, ainda na planta. Ela não tem filhos, tem algumas irmãs que moram fora, e uma que mora em Rio Preto, com quem, pelo que me parece, teve um desentendimento há alguns anos, ou algo assim. Então, um dos porteiros do prédio sempre a ajuda com as coisas dela, e alguns vizinhos também.
De algumas semanas para cá, eu, minha mãe e meu irmão, que sempre gostamos muito dela, vínhamos trazendo-a para almoçar ou jantar conosco, ou, quando não era possível, levávamos comida para ela.
Antes que me esqueça, devo ressaltar que ela, infelizmente, sofre de Alzheimer, mas lembra de coisas do passado, conta a vida dela todinha, mas se esquece totalmente de coisas que acabaram de acontecer.
Há algumas semanas, ela comprou um terço do Beato Carlo Acutis que eu fiz. Como ela não sai muito, fui ao apartamento dela com a intenção de dizer que iria à missa com minha mãe, e perguntar se gostaria que eu levasse o terço para o padre benzer, porque também iria levar o meu.
Para minha infeliz surpresa, ela, que tinha jantado conosco, na noite anterior, na qual tínhamos lhe dito que se precisasse de qualquer coisa, a qualquer hora, poderia nos chamar, foi atender a porta e me receber, mancando, dizendo que desconfiava ter quebrado o pé. Quando perguntei como tinha acontecido, ela me disse que tinha voltado do nosso apartamento, na noite anterior, dormiu, acordou de madrugada pra ir ao banheiro, dormiu no vaso sanitário, acordou, e, ao se levantar, bateu o pé com tudo na porta. Disse também que não quis nos incomodar (embora tivéssemos deixado o contrário bem claro). Então ficou assim mesmo, com muita dor, e só chamou uma pessoa que trabalha no prédio, naquela manhã, mas a pessoa não deu muita importância.
Resumo da ópera: levamos para o hospital. Ela realmente tinha quebrado o pé. Apesar de ser um tanto quanto geniosa (mas também amorosa comigo e com minha família), algumas pessoas não estavam tendo muita paciência com ela. Ficavam dizendo que ela “sempre está com alguma coisa”, que quando não é uma coisa é outra, o que é horrível de ouvir.
A lição que eu quero trazer (e, claro, a explicação para aquela introdução até agora sem sentido) é que devemos sempre nos colocar no lugar do outro, por mais difícil que seja. Pode ser que um dia venhamos a passar pela mesma situação, e sempre esperamos que as pessoas tenham empatia por nós e pelo nosso sofrimento, pelas nossas fraquezas. A idade chega para (quase) todos. Envelhecer, embora não seja fácil, pois tudo na vida tem suas consequências, sejam boas ou ruins, é um privilégio.
Como disse, o mundo não dá voltas. Ele capota. E a pessoa que desdenha hoje pode ser a que precisa de ajuda amanhã.
Um grande beijo, e até a próxima!
