Izaltino Gonçalves de Paula, autor de um dos maiores clássicos da música caipira, morre em Tanabi, aos 96 anos
Quem já viajou na música “Boi Soberano”, ícone da moda caipira, um causo cantado de autoria de Izaltino Gonçalves de Paula, se transporta até Barretos, onde o estouro da boiada sacode a capital do rodeio e um imponente boi preto salva o menino. Como gratidão, seu pai o compra e o leva para sua propriedade; assim, o boi escapa de ser sacrificado. Notícia triste é que o pai de Soberano se foi. Morreu dia 27 de março, em Tanabi, onde morava. Izaltino estava internado na Santa Casa, onde morreu aos 96 anos, vítima de pneumonia. Foi velado na Câmara e enterrado no cemitério da cidade.
O músico e compositor foi descrito pela filha Ângela “como um ser exemplar, que mesmo sem formação escolar construiu uma trajetória pautada pela dignidade e pela caridade silenciosa”. Ela também lembrou da superação do pai ao perder um filho assassinado décadas atrás.
Izaltino lançou a composição em 1966, em parceria com Pedro Lopes de Oliveira e Carreirinho. A canção tornou-se fenômeno imediato ao ser gravada pela dupla Tião Carreiro e Pardinho. Atravessou gerações e se consolidou como um hino da música de raiz, garantindo ao compositor um lugar de honra na história.
Boi Soberano também foi gravado por outras duplas sertanejas, em outras versões notáveis, que incluem Zé Carreiro e Carreirinho, Matogrosso e Mathias, e gravações recentes, como a de Mayck e Lyan. Até hoje a canção é tocada em rádios por todo o país.
Em 2025, o Clube do Peão de Barretos inaugurou o Monumento ao Boi Soberano, no Parque dos Lagos, escultura assinada pelo artista plástico Marcos Moura.
Com o adeus de Izaltino, o povo brasileiro também se despede de um artista autodidata que soube transformar um causo do cotidiano rural em canção eterna, e uma poesia cantada em uma lenda da cultura caipira.

‘Izaltino compôs a música sozinho’, revela autor de A Moda é Viola
Não é com qualquer um que se está falando quando um fruto de seu trabalho já vendeu mais de 20 mil cópias somente na utópica ilha de Cuba. Romildo Sant’Anna, jornalista, escritor e um dos maiores intelectuais caipiras de que se tem notícia, é hoje um dos guardiães da odisseia da viola no mundo. Em 2008, visitou Izaltino, que compôs Boi Soberano, afim de completar a atualização da terceira edição de sua obra “A Moda é Viola”.
Foi recebido na casa simples do artista, em Tanabi. Lá, se deparou com um homem que se tornou culto observando com atenção a aspereza do mundo. De suas mãos foram gravadas 28 canções por cantores da música caipira e sertaneja.
Na época, havia sido homenageado em Barretos, o que ele classificou como “imerecido”, já que se classificava, ainda, como amador. Romildo, em entrevista exclusiva à Folha Caipira, conta que, diante da simplicidade de Izaltino, chegou a ficar comovido. “Ele me mostrou as guias de recebimento de direitos autorais, os quais eram insignificantes, e lhe mantinham em uma vida de pobreza material”, diz.
“Ele tinha plena noção do que fazia. Está no livro (A Moda é Viola), ele conta como criou o Boi Soberano. Essa música é um ícone do cancioneiro caipira. Boi Soberano é um personagem não humano, humanizado, e, quando acontece a intercessão divina, Deus o santifica”, argumenta o escritor.
Romildo faz ainda uma importante revelação: “Fiquei muito triste com sua partida, estava a ir visita-lo. É importante que todos saibam que, embora a música também tenha sido creditada a Carreirinho, ele a fez sozinho, a letra e a música. Ele contou que naquela época era necessário, era comum se associar a alguém já conhecido, para poder ganhar algum espaço”, conclui. (AV)
Boi Soberano
Me alembro e tenho saudade
Do tempo que vai ficando
Do tempo de boiadeiro
Que eu vivia viajando
Eu nunca tinha tristeza
Vivia sempre cantando
Mês e mês cortando estrada
No meu cavalo ruano
Sempre lidando com gado
Desde a idade de quinze anos
Não me esqueço de um transporte
Seiscentos bois cuiabanos
No meio tinha um boi preto
Por nome de Soberano
Na hora da despedida
O fazendeiro foi falando
Cuidado com esse boi
Que nas guampas é leviano
Esse boi é criminoso
Já me fez diversos danos
Toquemo’ pelas estradas
Naquilo sempre pensando
Na cidade de Barretos
Na hora que eu fui chegando
A boiada estourou, ai
Só via gente gritando
Foi mesmo uma tirania
Na frente ia o Soberano
O comércio da cidade
As portas foram fechando
Na rua tinha um menino
De certo estava brincando
Quando ele viu que morria
De susto foi desmaiando
Coitadinho, debruçou
Da frente do Soberano
O Soberano parou, ai
Em cima ficou bufando
Rebatendo com o chifre
Os bois que vinham passando
Naquilo o pai da criança
De longe vinha gritando
Se esse boi matar meu filho
Eu mato quem vai tocando
Quando viu seu filho vivo
E o boi por ele velando
Caiu de joelho por terra
E para Deus foi implorando
Salvai, meu anjo da guarda
Deste momento tirano
Quando passou a boiada
O boi foi se retirando
Veio o pai dessa criança
E comprou o Soberano
Esse boi salvou meu filho
Ninguém mata o Soberano
(Izaltino Gonçalves De Paula/Pedro Lopes De Oliveira/Adauto Ezequiel)

