Gerações inteiras nasceram nas mãos de parteiras. Difícil hoje definir o ofício por estas bandas caipiras, onde estão praticamente extintas. Na história foram perseguidas, combatidas e caluniadas por representantes da sociedade que detinham poderes como sacerdotes, administradores e médicos. Curiosamente, a região noroeste de São Paulo é justamente a campeã estadual de partos por cesarianas, superando a marca dos 80%.
Mãos que ajudaram a enxergar a luz do Sol, as parteiras estão sendo procuradas em Rio Preto, agora com outro nome. O Hospital da Criança e Maternidade busca mulheres voluntárias para ajudar em nascimento natural. O parto normal, como também é conhecido o natural, deve ser arcado com programa do SUS, o Sistema Único de Saúde, do governo federal.
Chamadas pela saúde de “doulas”, a intenção é aumentar a oferta de “partos humanizados”. O programa requer que as voluntárias tenham curso de referência e façam a inscrição no SUS.
A Folha Caipira busca reconstituir o antigo cenário social em que viviam as parteiras caipiras. Embora, segundo um senso do IBGE ante a existência de cerca de 60 mil parteiras no Brasil, por estas bandas desapareceram. Difícil localizar uma viva, alguma testemunha dos partos nos quartos, das noites sofridas, do choro doído. Nenhuma das mãos bentas que ajudaram vidas a respirar. Nenhuma.
Praticamente todos os moradores nascidos em Catiguá, por exemplo, com mais de 50 anos, nasceram nas mãos da parteira dona Isolina Moreira. Ela morreu em 1994, aos 90 anos. Ficou esquecida. Teve oito filhos. O único que ainda morava na cidade era o açougueiro José Moreira. Segundo ele, sua mãe sempre foi profissional do parto, ofício que aprendeu com os pais e os sogros. Por isso, era tão astuta, juntava bastante sabedoria.
Já dona Itália Guelfi Federici, contou que foi vizinha e amiga de dona Isolina durante décadas. “Quando era hora de ter o bebê, de dia ou de noite, dona Isolina saía a pé ou a cavalo para o sagrado ofício. Nunca enjeitou de fazer um parto”, contou. Os seus depoimentos foram coletados em agosto de 2008. Dona Itália contava com 85 anos e José com 69. Ambos já morreram.
As parteiras foram fundamentais para o nascimento de milhões de crianças no Brasil. Foto reprodução 