Imagens de ruas de Adolfo estilizadas por moradores para a Copa do Mundo: verde, amarelo azul e branco. Fotos: Isadora Barbosa

Quando o asfalto vira arquibancada e a cidade entra em campo

Com a Copa do Mundo 2026, o interior paulista deixou o medo de sujar os pés e pintou o chão de festa. Muros, calçadas e ruas viraram arquibancada a céu aberto. Enquanto a seleção avança, o Brasil das cidades pequenas sai de casa para torcer com as mãos.
Adolfo virou a capital visual caipira da Copa. Ali, o cinza deu lugar ao verde, amarelo, azul e branco. A tinta secou no asfalto e virou paisagem, como se a rua respirasse em cores.
No Jardim das Oliveiras, tudo começou de vizinho para vizinho. Crianças, baldes e pincéis. Quadra após quadra, a tinta foi ganhando terreno, como um gol que se multiplica.
Quem abriu o jogo foi Isadora Barbosa, 34, agente comunitária de saúde. Na rua Benedito Batista Bittencourt, ela pegou no pincel antes mesmo do apito inicial. Antes do 1 a 1 com Marrocos, em 13 de junho, Adolfo já estava em campo.
“Pedimos licença à prefeitura e chamamos a rua inteira pra pintar junto. Virou mutirão. E a alegria contagiou: outros bairros também quiseram vestir a camisa”, lembra Isadora.
João Pedro Mantovan Villas Boas, 23, virou guardião do gramado pintado. Ele fica na esquina para que nenhum carro pise na “obra”. É respeito. É carinho por cada traço que ajudou a nascer.
A onda colorida escorreu até a pista de caminhada do Parque Jericó. A cada jogo, mais uma quadra entra em campo. Adolfo, com menos de 5 mil habitantes, ficou multicolor. Um município inteiro fantasiado de seleção canarinho.
O sopro chegou a outras cidades da região de Rio Preto.
Em Cedral, os bares vestiram a fachada e abriram o céu com telões. Em Tabapuã, uma choperia do calçadão atravessou a rua com a imagem dos jogos estampada no muro do outro lado. Catiguá acendeu a praça da matriz com um telão. E em Pindorama, o padre também apitou o início: na paróquia de São João Batista, distrito de Roberto, a fé e o futebol se encontraram antes da quermesse, diante da mesma tela.
Agora, com o Brasil nas oitavas de final, depois de vencer a Escócia por 3 x 0 na fase de grupos e o Japão por 2 a 1 no primeiro mata-mata, a tinta não seca. Cada rua é um aquecimento, cada muro é um grito contido de gol contra a próxima adversária, a Noruega, no dia 5 de julho.
Em Adolfo e nas cidades vizinhas, a expectativa pinta a cidade de novo: é a esperança de que o verde-amarelo vá longe, fase após fase, até que a festa do interior pinte também o fim do campeonato mundial com a conquista do hexa.

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