Peço licença ao meu cumpadi José Luis Rey para também falar sobre as Copas do Mundo. Minha crônica com outro tema já estava pronta quando li a dele no “Diário da Região” versando sobre o assunto. Também senti uma vontade enorme de registrar minhas lembranças daquele tempo litúrgico de futebol, eito e poeira.
Na Copa de 1966, morando na roça, era época da colheita do café, um mês de julho de muitos frios e geadas no interior paulista. O Vartim Precioso levava seu radinho de pilha da marca Mitsubishi — aquele da capinha marrom — colocado cuidadosamente em um galho do cafeeiro; em pouco tempo, todos os caboclos deixavam a lida de lado para se juntarem aos torcedores ao redor daquele pé de café.
As rádios de Rio Preto entravam em cadeia com as grandes emissoras de São Paulo. Muitas vezes, as ondas diminuíam e sumiam no ar, impossibilitando a audição perfeita dos lances.
Quatro anos se passaram. A mesma cena se repetiu. Os jogos das eliminatórias da Copa de 1970 no México ainda foram ouvidos lá na roça, no mesmo compasso do rádio de pilha. Já para a grande final, aproveitando que seria em um domingo de folga na lavoura, nós, caboclos, viemos todos para a cidade. Como ninguém tinha condução própria para o transporte, viemos a pé, conversando e rindo pelo caminho comprido.
Ficamos sabendo que o antigo bar Cruzeiro, bem no cruzamento da Bernardino com a rua Cila, estaria aberto e com o aparelho de televisão ligado para o evento. Para lá fomos com pressa e muita fé.
Era um percurso de mais de 10 quilômetros de chão batido e poeira. Como andar a pé era costume de todo santo dia, nem sentimos a canseira da viagem. Aquela foi a primeira vez na vida que eu assistia a um jogo de futebol de Copa do Mundo pela televisão. Embora a TV fosse em preto e branco, cheia de chuviscos e fantasmas na tela, a cada lance do nosso esquadrão de ouro era uma emoção indescritível que acelerava o peito. Foi também a última vez que tive a honra de ver o grande rei Pelé jogar em uma Copa do Mundo.
Enfim, o Brasil conseguiu o tão sonhado tri no México. Voltamos todos para casa a pé, fazendo o mesmo caminho longo na escuridão, mas com a alma leve, cantando e completamente satisfeitos pela vitória histórica por 4 a 1 contra a Itália. Uma lembrança bonita que o tempo não apagará jamais da memória deste velho matuto, provocada pelo meu cumpadi Rey.

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By Jocelino Soares

Artista plástico, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

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