Quem tem mais de quarenta anos guarda na memória o tilintar das garrafas do leiteiro na porta de casa, ainda de madrugada, quando a rua era só silêncio e cheiro de café passado. Guarda também o caminhão do garapão cortando as ruas, derramando pelo caminho aquele líquido de odor forte que anunciava sua chegada antes mesmo de dobrar a esquina. Ninguém fez campanha contra o leiteiro, nem abaixo-assinado contra o garapão. O tempo passou, a vida mudou, e essas cenas ficaram na lembrança — com carinho, até, porque fazem parte da nossa história.
Pois é assim que a gente avança: quase sem perceber. E não foi só na rotina que mudamos. Mudamos também naquilo que é mais difícil de mudar — o jeito de olhar para o outro.
Houve um tempo em que o apelido cruel era tratado como brincadeira. Em que a criança diferente era escondida da visita. Em que se ria, na praça, de quem falava, andava ou amava fora do padrão. Não éramos maus; éramos o que sabíamos sermos. Mas fomos aprendendo, do mesmo jeito que aprendemos a comprar o leite no mercado: sem alarde, no dia a dia, um vizinho ensinando o outro.
Hoje a cidade pequena, que tantas vezes foi acusada de ter mente pequena, dá exemplo: a escola acolhe o aluno com deficiência, a família abraça o filho como ele é, o vizinho de outra fé é convidado para o café da tarde. Ainda erramos, claro. O preconceito não sumiu como o caminhão do garapão — ele apenas aprendeu a falar mais baixo. E é justamente por isso que precisamos continuar atentos, porque o que se fala baixo também machuca.
Fica a pergunta, para pensar no fim da tarde, na calçada: o que fazemos hoje, achando normal, que daqui a vinte anos vai nos envergonhar? Que costume nosso vai virar lembrança da qual falaremos com espanto, como falamos das coisas de antigamente?
O tempo é um professor paciente. Ensina devagar, mas ensina. A nossa parte é simples e é difícil ao mesmo tempo: prestar atenção na aula e não repetir de ano.
