No meu tempo de menino, o hospital era uma lembrança distante, mas a cura morava logo ali, dobrando o carreador ou atravessando a pequena pinguela de madeira da colônia. Bastava o corpo dar um sinal de “quebranto”, uma criança murchar de olhos tristes sem motivo aparente, ou um caboclo sentir o peso da “espinhela caída”, que o destino era um só: a casa da benzedeira. A medicina da roça não vinha em vidros de farmácia, mas em sussurros de fé e ramos colhidos no quintal.
Entrar naquela casa era como atravessar um portal para um lugar onde o tempo pedia licença para parar. O cheiro de arruda fresca, levemente amargo e purificador, misturava-se ao perfume das velas de cera e ao aroma de café que nunca parava de coar no fogão. No oratório de madeira escura, uma multidão de santos de saibro, com as pinturas descascadas pelo tempo, e estampas de papel já amareladas, parecia vigiar o visitante com uma paciência e uma bondade infinitas.
A benzedeira — que muitas vezes era a matriarca da colônia, uma mulher de mãos pequenas e calejadas — não fazia perguntas difíceis. Ela lia o mal pelos olhos da gente e pelo jeito que o corpo se curvava. Pegava o seu raminho de arruda, fazia o sinal da cruz no ar com uma rapidez mística e começava aquele sussurro sagrado. Eram palavras rápidas, uma conversa particular dela com o invisível, um “Pai Nosso” rezado de um jeito que parecia uma canção de ninar para a dor. Enquanto ela rezava, o raminho de arruda ia murchando entre seus dedos. Diziam os antigos que a planta bebia o mal, que ela se sacrificava para limpar o cristão.
Havia também o mistério do prato com água e as gotas de óleo, que se espalhavam ou se juntavam para revelar o tamanho do “mau-olhado”. Ou o barbante medido com rigor para “levantar a espinhela” de quem vivia cansado. Saberes que não constavam em nenhum tratado médico, mas que passavam de geração em geração, no pé do ouvido, como um tesouro que a morte não conseguia apagar. O que a gente sentia ali não era apenas a melhora do corpo; era um conforto que vinha da alma. A benzedeira era o elo entre a nossa fraqueza e o poder do divino.
Ela nunca cobrava um tostão, pois seguia a lei de que “o que Deus dá de graça, de graça se entrega”. No máximo, aceitava um abraço apertado, um “Deus lhe pague” sincero ou, vez ou outra, um punhado de farinha de milho ou uma dúzia de ovos caipira. Hoje, os consultórios são brancos, gelados e impessoais, e a pressa das cidades não deixa ninguém ter tempo para sussurrar uma oração. O raminho de arruda virou apenas um enfeite de jardim e as benzedeiras estão partindo silenciosamente, levando com elas as rezas que acalmaram tantas infâncias. Mas quem, como eu, ainda carrega o cheiro daquela arruda na memória, sabe que a maior cura do mundo sempre foi, e sempre será, o amor traduzido em forma de prece.
